Sair da zona de conforto
- 23 de jul. de 2017
- 4 min de leitura
Nunca fui muito dado à Literatura. Posso dizer que olho para a Língua Portuguesa apenas como uma forma de comunicação, nada mais.

Como prova final para terminar o curso, tinha de fazer, em duas semanas, uma curta-metragem sobre Fernando Pessoa e Luís de Camões. Sendo honesto, entrei em pânico quando soube o tema da curta-metragem.
Mal cheguei a casa, reuni todas as condições para obter o máximo de informação sobre o tema e, dessa forma, ter condições para fazer uma curta-metragem. Comecei por entender sobre a matéria, assisti a longas video-aulas de professores brasileiros que souberam explicar a essência e o conceito de Fernando Pessoa e Luís de Camões, como ninguém. Sendo honesto, não me identifiquei com a obra de Luís de Camões, mesmo tendo a consciência da genialidade do autor d'Os Lusíadas. Em contrapartida, adquiri um gosto especial por Fernando Pessoa, sendo assim, a primeira decisão foi centrar-me no que mais me cativa e me interessa. Tal como tudo na vida, comecei por criar uma estrutura sólida para poder pensar numa possível história. Primeiramente, pensei nas personagens. Luís de Camões, sendo o poeta com quem menos me identifico, passa a ser uma personagem passageira. Depois, passa a existir uma indecisão se Fernando Pessoa interpreta todos os Heterónimos ou se faço uma história entre cinco personagens: Fernando Pessoa; Luís de Camões; Alberto Caeiro; Ricardo Reis; Álvaro Campos. Relativamente ao Local, tenho a sorte de conhecer pessoalmente a Presidente do Clube de Futebol de Sassoeiros, que me disponibilizou o auditório do clube. Talvez seja um local demasiado moderno para a época das personagens, mas arranjar um bom local de rodagem com um look vintage numa semana, era impossível. Passei horas e horas a pensar numa possível história e numa maneira de ligar dois Poetas de épocas tão diferentes, por incrível que pareça, bastou-me sentar à mesa com os meus pais para me nascer uma ideia para estruturar uma história. Quando me sentei, associei a cadeira a um Grupo de alcoólicos Anónimos, instantaneamente pensei em fazer um trocadilho para O Grupo dos Poetas Anónimos, onde cada um se caracteriza e apresenta a sua Obra. Deixou de haver a indecisão no número de personagens. Num Grupo de Poetas, faria mais sentido haver cinco poetas e não apenas dois. Depois, pensando melhor, cheguei à conclusão que não tinha atores suficientes, aliás, apenas tinha um com a hipótese de ter dois. Creio que um ator a representar 5 personagens não é o mais agradável à vista, mas porque não tomar isto como um desafio para evoluir? Nem mais, contei com um ator e com um figurante que tem apenas duas falas. Consegui a proeza de terminar em dois dias, o que para mim seria mais difícil, o diálogo. No início tive alguma dificuldade em desenvolver a conversa entre as personagens, confesso que estava sem ideias para quebrar a monotonia que o tema exige. Não sabia como havia de concluir a história ou conversação até me ter reunido com o ator principal, Pedro Carranquinha. O Pedro teve a ideia de fazer da conversa entre os 5 poetas, um sonho de Fernando Pessoa. Luís de Camões representa a sua influência. Alberto Caeiro, Álvaro Campos e Ricardo Reis representam as várias facetas de Fernando Pessoa. A partir daí, foi relativamente fácil prosseguir com a escrita, acompanhada pelos meus apontamentos espalhados pela mesa. Dei a escrita do diálogo por terminada no sábado, com o auditório marcado de Domingo para quarta.
No suposto primeiro dia de filmagens, encontrei-me cedo com o Pedro. Tivemos um dia um pouco atordoado porque não nascemos propriamente para fazer figurinos. Passámos uma tarde inteira em lojas e em frente aos nossos roupeiros a ver se havia algo que servisse para o que queríamos. Foram tantas as horas que acabamos por não ter tempo para começar as filmagens. Os resultados de tanta busca não foram muito satisfatórios, mas não havia tempo a perder. Estávamos prontos para começar as filmagens com o que tínhamos. Segunda arrancámos com as gravações. Não dei tempo ao Pedro de decorar o texto em casa, por isso, levei um monitor para servir como ponto, caso a fala seja muito complexa. Levei a minha claquete para me poder localizar no dialogo e para poder sicronizar os planos com o som (Gravado por um iPhone 5). Infelizmente, não tive tempo para escrever um guião nem uma planificação, sendo assim, arrisquei-me a filmar à base do improviso. Cometi alguns erros, principalmente com o som: Coloquei o iPhone a captar som na suposta cadeira ao lado direito de cada personagem. Sempre que a personagem falava para o lado esquerdo, notava-se uma diferença abismal no volume e na definição da voz, para pior, claro. A nível de planos, a avaliação a ver muito com o gosto pessoal. Consegui cumprir sempre a regra dos 180º e regra dos terços (Por vezes, intencionalmente exagerada),
mas durante a edição, detectei dois planos mal focados e algumas duvidas relativamente à escolha da escala de planos.
Contudo, adorei a experiência. O que parecia ser fora do meu interesse geral e impossível de realizar, tornou-se em algo que posso juntar ao meu portfólio. Cada vez tenho mais a certeza que a nossa zona de conforto alarga sempre que sairmos dela. Mal posso esperar por mais desafios destes que me façam dar um passo nesta área que tanto me diz.











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